segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

ps:. não gosto mais tanto de pintar as unhas.

Faz mais de um mês que você foi embora. Mas suas coisas ainda estão por aqui. Fui a lavanderia e encontrei aquela sua camiseta velha e feia, "a preferida", que eu havia escondido para você não usar. Antes talvez ela me desse raiva, agora me fez achar graça. Arrumando a casa, descobri uma conta de celular, que não era minha. E um papelzinho azul, daqueles que sai na maquininha quando agente paga com cartão, escrito o seu nome. Havia um tempo que eu tentava esquece-lo e ai, do nada, um papelzinho azul com seu nome nele. Foi daquele café da manhã que tomamos perto da candelária. - café da manhã na candelária?? mas o que mesmo estávamos fazendo lá? eu não lembro... só lembro da sua cara de café da manhã. Seus cabelos despenteados, a camiseta branca e o óculos de aviador. não gosto desses óculos. e já que eu não gosto dos óculos, também não gostava daquelas costeletas que você cismava em cultivar. Essa imagem tem me perseguido, tatuada em minhas pálpebras, eu fecho os olhos e ela está lá; eu acordo e ela está grudada nas paredes, com uma sensação, estranha. A sensação de ter esquecido algo, de ter perdido algo... Porque mesmo você foi embora? Deve ter sido alguma besteira, como as varias brigas que tinha-mos por eu pintar as unhas, ou porque eu falava alto de mais. aah poxa vida, você era muito certinho. Mas acho que eu te amava. - Como foi que tudo acabou? Não lembro. A sensação é que você estava aqui sentado no sofá, levantou sem dizer nada, saiu pela porta e nunca mais nos falamos. Será que foi assim? ou nunca te conheci? já quase nem sei mais... Com a minha memoria tão fraca, parece que é de propósito. Eu abro o meu armário e lá ainda tem um tênis seu, na pia uma escova de dentes e ao lado da minha cama, um livro. Supus que o lado em que ele se encontrava era o lado da cama que você dormia, - Ou você sempre ia para o meu lado ler, por ser mais perto da janela? Tanto faz, agora eu durmo na diagonal. No meu computador ainda tem gravado seu endereço na pagina de entrada do orkut e do msn, nos meus favoritos tem uns sites seus e nos meus documentos está cheio de fotos suas. Vou juntar tudo e colocar em um arquivo morto. - Isso está começando a me incomodar. No começo passava despercebido, como se fosse da mobília, depois eu comecei a me questionar, "o que aquilo estava fazendo ali", sem realmente parar para raciocinar, uma pergunta sem resposta. Depois de um tempo de readaptação; que me tornei um só e de mim mesma, todas essas coisas, pequenas coisas, se transformaram em quase uma crise existencial. Não eram minhas, não tinham nada a ver comigo, porque estavam ali? - E porque não jogo fora? se é tão simples... De inicio parecia que você ia voltar, depois me apeguei por lembrança, e agora...me falta coragem. É como se eu quisesse me colocar para fora de casa. Não jogo fora porque me acostumei com elas. Fazem parte da sua herança, das transformações que vamos sofrendo a medida dos que passam por nós. Como gostar de cerveja Heineken, ou ver a cidade amanhecer no centro da cidade. - Agora me recordo vagamente...Era isso que estávamos fazendo na candelária tão cedo. ...Não sei... To com aquela sensação estranha, sensação de que esqueci algo... Parece que falta um pedaço, um pedaço meu feito de ti.

- Lia Saboia -

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