Na quela manhã, J acordou com a sensação de ter aberto os olhos rápido e inesperadamente, como se alguém o tivesse sacudido. Virou-se de lado esforçando-se para sentar-se, sentindo o corpo fazer força ao contrário. Vagarosamente colocou-se de pé, notando o frio do chão queimar da ponta dos dedos até tomar por completo o calcanhar, "seria melhor continuar deitado" pensou. Mesmo assim caminhou até a cozinha. Encheu uma chaleira com água e colocou para ferver. Voltou ao quarto para pegar um casaco e por acaso viu seu corpo cada vez mais magro no espelho. Quase riu da ironia tragicômica que percebia ser sua vida, se vista de fora. "Quer dizer que é assim?".
O mesmo homem que agora se observava forçando-se de modo consciente à depreciar cada pedaço de si, era considerado um gênio da musica pelos muitos que o idolatravam. "Se imaginassem como me sinto por dentro...". Perguntava-se, se haveria algum sentido além do impulso mecânico que o obrigava a sobreviver para a cada manhã levantar-se com um bicho que lhe comia as entranhas. Podia senti-lo naquele exato momento. "A coisa" andava em círculos lentamente em algum lugar pelo meio do peito. Ouvindo o apito da chaleira, arrastou-se novamente até a cozinha. Pegou no armário uma xícara delicada de porcelana florida e um pires amarelinho, J possuía um certo apreço por esses objetos que o faziam sentir-se em casa. Algo semelhante a nostalgia. Quem sabe, da mesma casa que abandonou aos 16 anos pela ânsia ao grande mundo lá fora que tanto desejava.
A casa onde voltou apenas 7 anos depois para o enterro da mãe. Foi repentino. No fundo sentia remorso, de alguma forma acreditara que a pobre mulher existiria para sempre. Por isso adiou um dia, teve algo mais importante para fazer em outro, pessoas mais interessantes com quem falar, compromissos inadiáveis... Até que foi tarde de mais. Mas não se deu muito tempo para refletir. De qualquer forma, levou consigo a xícara e o pires num automanifesto à própria sensibilidade. Enquanto observava a fumaça que subia da água quente deixou-se ir com seus devaneios até que o miado de seu velho gato veio interromper. O animal também fora adquirido porque o fazia sentir-se mais comum. O relógio marcava 8 horas da manhã e ele só conseguíra pregar os olhos por 4 horas. Ignorando o vento forte que sabia que ventava porque podia ver da janela as folhas das arvores balançando com violência, dirigiu-se para a mesinha do lado de fora da casa com o chá e o violão. O ar frio correndo pelo seu rosto o fazia sentir-se mais vivo, ele estava esforçando-se para abrandar o vazio no coração. Encolheu-se na cadeira e arriscou empunhar o instrumento. As musicas que o faziam sentir-se bem não era as que seu publico gostava de ouvir. Para falar a verdade, se pudesse nunca mais tocaria para ninguém. Faz tempo que tudo perdera o sentido... Mas se não o fizesse, o que restava? Não havia nada ou alguém que preenchesse a falta devoradora que sentia.
A alguns meses passaram-lhe comprimidos, disseram que ele estava deprimido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário