segunda-feira, 13 de maio de 2013

Sala de espera

Ele estava sentado à minha frente, vejo apenas sua cabeça alva marcada por feridinhas da idade e bem poucos cabelos, um cabelo branquinho e macio... Arrisco sentar-me de modo a vê-lo pela frente mas quase não tenho coragem de encara-lo. Tenho medo de que ele saiba que está sendo observado e fique constrangido. Nunca saberei realmente. Me pergunto se ele sente. O que será que ele pensa? É mais fácil acreditar que a demência o deixou insensível. Seu corpo me parece uma grande massa pesada que funciona como uma prisão. Incapaz. Porque a vida ainda teima em resistir mesmo assim? Nada na vida ou na morte me assombra mais que o prognóstico para mim gritando através dele. Sinto que devo desculpas a ele por minha aparente frieza. "Ele não sente nada" "Ele não sabe quem eu sou", repito. O observo imóvel como um boneco, mirando o nada. Vez ou outra começa a  mover o dedo indicador repetidas vezes como se quisesse despregar algo. A quase 40 minutos está exatamente do mesmo modo que o deixamos. A Tv está ligada mas não parece produzir reflexo. As vezes faço uma breve viagem pelo eco enclausurado que imagino ser sua alma. Fantasio que ali existe um ser que sente, pensa e se desespera ao perceber que está atrás de uma parede para onde os outros olham em busca de respostas, sem nada ver. "Eu estou aqui" suponho que ele grite. Sinto vontade de abraça-lo, mas o passado não deixa. Minha mãe diz que devo perdoa-lo, que ter compaixão é um ato de bondade. Não consigo dizer em voz alta algo que explique minha verdadeira dor sem que o nó em minha garganta comece a escorrer pelos olhos. Não faço sinal de ter escutado o que ela disse. Seguro meu tasbih e para cada uma das 99 peças, peço perdão. quase posso ama-lo. Me determino a olha-lo atentamente. Não sei quem é. Em nada se parece com o homem forte da foto que segura os três netos no colo. Algo nela acusa carinho. De repente me lembro que foi ele quem me deu meu primeiro patins, o brinquedo preferido de toda a minha infância. Eu tinha sete anos. Há tempos esqueci disso. Forço a memória em busca de algo mais. Tenho a memória fraca, está quase tudo apagado. Talvez uma imagem congelada, de algum momento vago. Guardo apenas 3 momentos em movimento. O dia em que ele se balançava na rede da sala rindo enquanto me via aprender a andar de patins, O infeliz fato que marcaria para sempre nossa relação e o outro dia em que ele me pediu desculpas. Pela primeira vez, agora em quanto escrevo, vejo como deve ter sido difícil para ele pedir-me desculpas..."desculpas"...Eu nunca havia percebido isso. A verdade é que por mais que eu me force e me esforce a crer que ali não existe nada além de um corpo flácido estorvador, sinto que mesmo que só por um segundo, ele sabe quem eu sou. Muito brevemente ele ultrapassa a parede e eu sei que ele está lá dentro, eu sei quem ele é. Por isso é impossível olha-lo nos olhos.

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