Estávamos almoçando em baixo de árvores, ao som de uma boa musica. Um dia de sol sem nuvens. vento fresco. Irradiávamos contentamento.
Foi quando ele chegou, é natural que chegasse, se não ele, outro.
Vinha magro, a grossura de seus braços não era mais que a circunferência dos ossos. Magro, sujo, os dentes pretos. Parecia que para se equilibrar em pé precisava de um grande esforço.
Chegou ao lado, pediu uma moeda. Dissemos que já havíamos dado todas à outra pessoa.
Foi à próxima mesa, alguém disse para que ele ficasse longe que iriam mandar fazer um prato de comida para ele, fiquei observando. Acho que esqueceram.
Atrás de mim tinha um banco onde ele sentou. Fiquei sentindo a sua presença. Brinquei com um gato que estava por ali, "eu estou sendo mais sensível a um gato de rua do que a uma criança faminta", pensei. Depois ele pegou o gato no colo.
Eu sabia que não era a única que estava pensando coisas, que a presença dele tinha perturbado a todos nós. "é muita miséria", alguém comentou. "O pior é que agente não sabe se uma pessoa dessa é drogada ou tem fome mesmo", botando em palavras o que desde o inicio estávamos todos pensando. Ficamos discutindo a grande miséria do mundo, a falta de perspectiva, a morte como indigente. Se ele teria sonhos, que tipo de sonho. O descaso político. A insensibilidade humana. Tínhamos muitas especulações.
Nos sentíamos compadecidos dentro das nossas possibilidades. Mas é claro que isso quase não passa de vaidade.
Ele foi de uma mesa a outra, voltava as que já tinha estado, sentava de novo atrás de mim.
"ei, eu vou ficar esperando o troco aqui, tá?" falou para nós. "onde você mora?" "na rua", "cadê sua família? sua mãe?".Nós e a nossa ótica cultural. "eu fugi de casa porque meu padrasto me batia muito", "e não tem um abrigo que você possa procurar", "no abrigo é muito ruim", "só para dormir", "não, eu prefiro dormir no banco da praça mesmo".
"você precisa estudar para sair da rua". Nós e o nosso abismo de diferenças. Nós que nunca de fato saberemos. "porque você não me leva pra sua casa?", perguntou simplesmente, e sorria. Silêncio. A conta chegou, demos o troco a ele.
- Lia Saboia -
- Lia Saboia -
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