quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Recalquei memórias que agora voltam ou vovó e a serra



Você está sentada em uma cadeira de palha trançada, vestido
azul clarinho todo floridinho de rosa, seus cabelos brancos
lisinhos e seu corpo mirrado parece sumir aos poucos.
Em frente a velha casa branca de 200 anos.
Ela também parece está desaparecendo junto com você, vovó.
As árvores que nos cercam soltam um lamurio lúgubre por entre a atmosfera insalubre das sombras.
Essas árvores sempre me causaram fascínio e pavor junto com os silêncios da casa.
Tudo nela era frio, paredes, o chão de barro, móveis, os segredos dos que já partiram.
As vezes pareciam tomar vida murmurando e estremecendo para mim.
Eu saia correndo num terror desabalado tendo não ver, não ouvir nem sentir, antes que a casa por maldade me aprisionasse atrás de alguma porta surda.
Aquela casa ainda me parece ter uma face distorcida num grito mudo.
Ou talvez o grito seja apenas o meu ecoando pelas paredes dessa lembrança.
Você também vovó sempre me pareceu misteriosamente triste.
Sempre andei descalça, você sabe. odeio sapatos.
E você me dizia "vá se calçar, você vai ficar resfriada nesse chão frio ou vai pegar bicho no meio do mato"
Nunca ouvi.
Da porteira azul velha e quebrada eu te via tomar banho de sol, parece que foi ontem que andei até você por entre a estrada de barro batido com pequenas valas parecendo rios secos feitos pela chuva. Você me olhou severa.
Esses tempos andam estranhos e você está sempre aborrecida, no dia anterior você levantou o braço para me bater, acho que se assustou com alguma coisa.
Então você disse "o que essa menina está fazendo descalça? cadê a mãe dela?" e meu pai te falou "é minha filhotinha mamãe, sua neta"
"essa menina, sua filha?" e soltou um riso desconfiado como se alguém quisesse zombar de você depois passou uma sombra pelo seu rosto e você se perdeu num mundo só seu.
Eu esbocei meu sorriso mais convincente que consegui enquanto tentei falar engasgada "é, sou eu vovó" eu queria esticar minha mão até sua cabeça mas o susto de você tentando me bater ainda estava em mim e o calor subindo pelo meu corpo, minha garganta fechando em um nó que doía quase amargo, você na minha frente, meu pai ao meu lado, eu desesperada prestes a irromper em choro disse qualquer coisa sem sentido e sai desorientada o mais depressa que pude para que não vissem minhas lágrimas e soubessem o quanto aquilo doía. Tanto tentei fingir que era normal. Não é normal.
Corri sem rumo até parar na velha cacimba do riacho.
Tentando interromper o choro convulsivo entre um acesso tosse vomitiva e um desesperado respirar entre-cortado do meu coração sufocado.
tem cinco anos que você me deixou mas esse dia ainda bate perturbador entre meu peito e a garganta como se tivesse sido ontem.


- Lia Saboia -

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